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GRITO DOS EXCLUÍDOS: QUANDO A FÉ ENCONTRA A VIDA DOS QUE MAIS SOFREM

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“Há gritos que ecoam nas ruas, nas praças, nas manifestações e nas vozes daqueles que lutam por direitos. Mas existem também gritos silenciosos, escondidos atrás de um sorriso, dentro de uma casa sem alimento suficiente, na solidão de um idoso, na angústia de uma mãe sobrecarregada, na falta de perspectiva de um jovem ou no cansaço de quem trabalha muito e ainda não consegue viver com dignidade”.

Marcos Vale e Valmir Carlos

Foi justamente sobre esses gritos que o padre José Geraldo Teófilo da Silva, do Santuário São Benedito, de Pedreiras, Maranhão, nos provocou a refletir durante o evento alusivo ao 32º Grito dos Excluídos, realizado no dia 3 de setembro, no Sindicato dos Servidores Municipais de Pedreiras.

Participei daquele momento como palestrante, abordando o tema “Vida em Primeiro Lugar – Justiça social, moradia digna e defesa do território”. Falei sobre direitos sociais, sobre as dificuldades enfrentadas pelas cidades e, principalmente, sobre as potencialidades que temos para construir um novo caminho de desenvolvimento para Pedreiras e para toda a região.

Falamos do potencial turístico da terra de João do Vale e de tantas outras personalidades que ajudaram a construir nossa identidade; do potencial comercial e cultural; da agricultura e das possibilidades econômicas existentes em nosso território. Procurei destacar uma convicção que considero fundamental: um território só pode ser verdadeiramente chamado de desenvolvido quando as pessoas que nele vivem conseguem viver com dignidade.

Desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo crescimento econômico, pela quantidade de obras ou pela movimentação comercial. Precisamos pensar em planejamento, em uma agenda regional de desenvolvimento, construída coletivamente, capaz de gerar oportunidades, melhorar os serviços públicos e, acima de tudo, elevar a qualidade de vida das pessoas.

Entretanto, entre tantas reflexões daquele encontro, uma fala me chamou especialmente a atenção: a do padre José Geraldo. Suas palavras me fizeram perceber — e acredito que também provocaram os demais presentes — que a luta por uma vida digna, independentemente da religião de cada pessoa, possui uma profunda relação com aquilo que o cristianismo verdadeiro deveria buscar e vivenciar

Pe. Jose Geraldo

OS GRITOS ESCONDIDOS NO SILÊNCIO

Fragmento do Pe. José Geraldo: “Há muitos gritos escondidos no silêncio do nosso povo. Há pessoas sorrindo por fora enquanto carregam tempestades por dentro.

O padre chama atenção para famílias preocupadas com o pão de amanhã, trabalhadores exaustos, jovens sem perspectivas, idosos esquecidos, mães sobrecarregadas e pessoas enfrentando solidão, ansiedade, desânimo e outras dores.

Ele nos lembra que existem pessoas que têm casa, mas não encontram paz; que têm trabalho, mas não têm tempo para viver; que estão cercadas de gente, mas experimentam profunda solidão.

Esse olhar é fundamental para compreender o verdadeiro sentido do Grito dos Excluídos. A exclusão não aparece somente na ausência de renda. Ela também está na falta de moradia digna, no desemprego, na precarização do trabalho, na ausência de atendimento adequado à saúde, na dificuldade de acesso à terra, na desigualdade e no abandono. Há pessoas invisíveis aos olhos de uma sociedade que aprendeu a perguntar quanto alguém produz, mas que muitas vezes esqueceu de perguntar como essa pessoa está. É preciso recuperar a capacidade de olhar para o outro.

A INJUSTIÇA SOCIAL TEM ROSTO

Fragmento do Pe. José Geraldo: “Existem também as feridas da injustiça social.”

O padre cita famílias sem moradia digna, pessoas esperando atendimento, trabalhadores submetidos a condições difíceis, pequenos agricultores lutando para permanecer na terra, crianças crescendo em ambientes marcados pela desigualdade e homens e mulheres que trabalham muito e continuam enfrentando dificuldades para sustentar suas famílias. Aqui encontramos um ponto de convergência muito forte com aquilo que defendi em minha fala.

Quando afirmamos “Vida em Primeiro Lugar”, estamos dizendo que qualquer projeto de desenvolvimento precisa colocar a pessoa humana no centro. Não podemos falar de desenvolvimento regional sem discutir moradia, trabalho, renda, saúde, educação, cultura, segurança alimentar, preservação ambiental e direito ao território.

Não basta perguntar quanto um município arrecada ou quanto uma região produz. Precisamos perguntar: Como vivem as pessoas? Quem está tendo oportunidade? Quem está ficando para trás? Quem está sendo expulso de seu território? Quem trabalha e ainda não consegue viver dignamente? Quem possui uma casa, mas não possui condições mínimas para viver nela?

Essas perguntas também fazem parte do desenvolvimento.

“O LUGAR DA IGREJA”

Talvez uma das provocações mais fortes feitas pelo padre José Geraldo tenha sido esta:

Fragmento do Pe. José Geraldo: “O lugar da Igreja é onde Cristo estaria.”

E ele recorre aos Evangelhos para lembrar que Jesus se aproximava dos pobres, sentava-se com os rejeitados, tocava aqueles dos quais todos se afastavam, acolhia quem chorava e devolvia esperança àqueles que a sociedade havia condenado.

Essa afirmação deveria provocar uma profunda reflexão entre os cristãos.

Se Cristo caminhava ao lado dos pobres, dos doentes, dos excluídos, dos famintos e daqueles que sofriam, então onde deve estar uma Igreja verdadeiramente inspirada em Cristo?

A resposta parece simples: ao lado das pessoas. Não apenas dentro dos templos. Não apenas nos discursos. Não apenas nas celebrações. Mas também nas ruas, nas comunidades, nos bairros periféricos, no campo, junto aos trabalhadores, aos agricultores, às famílias que lutam por moradia, aos desempregados e a todos aqueles que carregam algum tipo de sofrimento.

SER CRISTÃO

Fragmento do Pe. José Geraldo: “Ser cristão não é somente carregar uma cruz no peito; é ajudar alguém a carregar a cruz da vida.”

E acrescenta que não basta conhecer o Evangelho; é necessário permitir que ele transforme a maneira como tratamos as pessoas. Não basta afirmar que amamos Jesus presente na Eucaristia se somos incapazes de reconhecê-lo no irmão que tem fome, no trabalhador cansado, no doente, no desempregado, no agricultor ameaçado ou naquele que simplesmente precisa ser ouvido.

Essa talvez seja uma das maiores provocações que ficaram daquele encontro.

Porque é relativamente fácil professar a fé. Mais difícil é vivê-la.

É fácil falar de amor ao próximo. Difícil é praticá-lo quando o próximo pensa diferente de nós.

É fácil falar de solidariedade. Difícil é repartir.

É fácil defender os pobres em um discurso. Difícil é estar ao lado deles quando seus direitos são negados.

É fácil falar de justiça. Difícil é lutar para que ela alcance aqueles que historicamente foram esquecidos. O verdadeiro cristianismo, portanto, não pode ser apenas uma experiência individual de fé. Ele precisa produzir consequências na maneira como nos relacionamos com o mundo.

O POBRE

Fragmento do Pe. José Geraldo: “O POBRE É LUGAR DE ENCONTRO COM CRISTO.”

Essa frase deveria permanecer ecoando em nossa consciência.

Se acreditamos que cada ser humano possui dignidade, então defender o pobre não é fazer caridade por superioridade. É reconhecer um direito.

Quando defendemos uma família que precisa de moradia, estamos defendendo dignidade.

Quando defendemos um trabalhador por melhores condições de trabalho, estamos defendendo dignidade.

Quando defendemos o agricultor e sua permanência na terra, estamos defendendo dignidade.

Quando defendemos uma criança contra a fome e a desigualdade, estamos defendendo dignidade.

Quando lutamos para que alguém tenha acesso à saúde, educação, cultura e lazer, estamos defendendo dignidade.

Por isso, a luta social e a fé, quando comprometidas verdadeiramente com a vida, encontram um ponto comum: a defesa da pessoa humana.

DEFENDER HISTÓRIAS E VIDAS

Fragmento do Pe. José Geraldo: “Quando defendemos a terra, não estamos defendendo simplesmente um pedaço de chão. Estamos defendendo famílias, histórias, culturas e o direito de plantar e colher com dignidade.”

O padre lembra que a terra carrega suor, memória e esperança. Para quem planta, a semente representa muito mais do que produção: representa o sonho de alimentar os filhos e construir um amanhã.

Essa compreensão dialoga diretamente com o conceito de território.

Território não é apenas uma delimitação geográfica no mapa. É identidade. É cultura. É memória. É trabalho. É pertencimento. É vida. Por isso, falar em desenvolvimento regional exige defender também os territórios e as pessoas que neles vivem. Não haverá desenvolvimento verdadeiro se o crescimento econômico significar expulsão, destruição ambiental, concentração de oportunidades ou perda das condições de sobrevivência das comunidades.

O TRABALHADOR NÃO É UMA MÁQUINA

Fragmento do Pe. José Geraldo: “O trabalhador não é uma máquina.”

E continua afirmando que o trabalhador não nasceu apenas para produzir, cumprir metas, pagar contas e chegar exausto ao final do dia. Por isso, considera que o debate sobre jornadas mais humanas, inclusive o fim da escala 6×1 e alternativas como a escala 5×2, envolve uma questão maior: que lugar estamos dando à pessoa humana dentro do desenvolvimento econômico? Essa pergunta precisa ser levada a sério. O trabalhador precisa de salário digno, mas precisa também de tempo. Tempo para estar com os filhos. Tempo para sentar à mesa com a família. Tempo para cuidar da saúde física e mental. Tempo para descansar. Tempo para participar da comunidade. Tempo para viver.

Uma sociedade que exige cada vez mais produtividade, mas oferece cada vez menos tempo para a vida, precisa repensar suas prioridades. Vida em primeiro lugar significa também reconhecer que ninguém deve ser reduzido àquilo que produz.

O GRITO TAMBÉM PRECISA SER CONTRA O EGOÍSMO

O padre José Geraldo não poupou ninguém — nem a nós mesmos.

Fragmento do Pe. José Geraldo: “É muito fácil denunciar a falta de fraternidade do mundo e continuar indiferente à pessoa que está ao nosso lado.”

Podemos participar de manifestações pela justiça e continuar incapazes de perdoar dentro de casa. Podemos falar dos pobres e nunca repartir. Podemos defender solidariedade nas redes sociais e não perceber a solidão de alguém próximo. Aqui está uma dimensão muito importante do Grito dos Excluídos: não basta apontar o dedo para fora. É preciso olhar para dentro. A transformação social também exige transformação humana.

Precisamos combater as estruturas de desigualdade, mas também combater a indiferença que muitas vezes se instala em nossas próprias relações. O Evangelho, como lembra o padre, começa também nas pequenas atitudes.

DE QUE LADO ESTAMOS?

O padre recorre à parábola do Bom Samaritano para fazer uma pergunta que continua absolutamente atual:

Fragmento do Pe. José Geraldo: “Diante do homem ferido à beira do caminho, quem se fez próximo dele?”

E nos provoca: “Diante de tantos feridos pelo caminho da vida, nós passaremos adiante ou teremos coragem de parar?” Essa pergunta não é apenas religiosa. Ela é humana. É política no sentido mais nobre da palavra. É social. É ética.

Todos os dias encontramos pessoas feridas pelas desigualdades, pelo desemprego, pela fome, pela violência, pela falta de moradia, pelo abandono e pela ausência de oportunidades.

A questão é saber se vamos passar adiante ou se teremos coragem de parar.

Parar para ouvir. Parar para acolher. Parar para ajudar. Parar para organizar. Parar para lutar.

O CRISTIANISMO QUE SE TRANSFORMA EM AÇÃO

Fragmento do Pe. José Geraldo: “O cristianismo possui essa força extraordinária: transformar misericórdia em atitude, compaixão em presença, fé em serviço e esperança em compromisso.”.

E defende que o Grito dos Excluídos não seja apenas uma caminhada ou manifestação de um dia, mas um verdadeiro exame de consciência.

É exatamente aí que vejo a grandeza daquele momento vivido em Pedreiras.

O Grito dos Excluídos não pode terminar quando termina a caminhada. Não pode ser apenas uma agenda anual. Ele precisa continuar na luta cotidiana por direitos.

Na defesa da moradia. Na defesa da terra. Na defesa do trabalhador. Na defesa da agricultura familiar. Na luta por saúde e educação de qualidade. Na defesa do meio ambiente. Na construção de políticas públicas. Na solidariedade com quem sofre.

E também na capacidade de transformar indignação em organização e esperança em ação.

UMA IGREJA QUE CAMINHA COM O POVO

Outro trecho da fala do padre José Geraldo que considero especialmente significativo afirma que a Igreja deve estar no meio do povo, não contemplando suas dores de longe, mas fazendo-se “presença, abraço e esperança”.

Deve caminhar com aqueles que vivem as mesmas estradas, escutar os gritos que ninguém quer ouvir e defender a dignidade daqueles que perderam a voz.

É uma imagem muito bonita de Igreja. Uma Igreja de portas abertas. De mãos estendidas. De coração inquieto diante da injustiça. Uma Igreja que não tenha medo de tocar as feridas humanas. Porque, como lembra o padre, foi assim que Cristo fez: aproximou-se, escutou, tocou, levantou, alimentou, consolou e devolveu esperança. Essa não deveria ser apenas uma bonita descrição do cristianismo.

Deveria ser um compromisso.

O GRITO É PELA VIDA

No final de sua reflexão, o padre José Geraldo deixa uma síntese que, para mim, dialoga profundamente com o tema que levei àquele encontro:

Fragmento do Pe. José Geraldo: “No final, talvez o mundo não precise apenas de mais discursos sobre Jesus. Precisa encontrar pessoas dispostas a viver como Jesus viveu.”

E conclui desejando que sejamos capazes de transformar o grito em escuta, a indignação em compromisso, a fé em obras, o egoísmo em partilha e a indiferença em fraternidade. É impossível ouvir essas palavras e não relacioná-las ao sentido mais profundo do Grito dos Excluídos.

Porque o grito de quem não tem moradia é um grito pela vida.

O grito de quem passa fome é um grito pela vida.

O grito do trabalhador submetido a jornadas desumanas é um grito pela vida.

O grito do agricultor ameaçado em seu território é um grito pela vida.

O grito da juventude sem oportunidades é um grito pela vida.

O grito de quem sofre silenciosamente é um grito pela vida.

E talvez seja justamente isso que mais me marcou naquele encontro em Pedreiras: perceber que, quando colocamos a vida e a dignidade humana em primeiro lugar, diferentes caminhos de reflexão podem se encontrar.

A filosofia nos convida a pensar.

A política pública deve transformar direitos em realidade.

O movimento social organiza a luta.

O sindicalismo defende o trabalhador.

A comunidade constrói solidariedade.

E a fé, quando verdadeiramente comprometida com os ensinamentos de Cristo, deve nos ensinar a reconhecer no outro um ser humano que merece dignidade, respeito e esperança.

Por isso, saí daquele encontro com uma certeza ainda mais forte: não existe desenvolvimento verdadeiro onde as pessoas não conseguem viver com dignidade. E não existe cristianismo verdadeiro quando somos indiferentes à dor daqueles que estão à margem.

O DESAFIO ESTÁ POSTO.

Precisamos transformar o grito em escuta.

A indignação em compromisso.

A fé em obras.

A esperança em ação.

E o desenvolvimento em dignidade.

E que nós, independentemente de nossa fé, crença ou convicção, tenhamos a coragem de fazer a pergunta que ficou ecoando das palavras do padre José Geraldo:

Diante de tantos feridos pelo caminho da vida, vamos passar adiante ou teremos coragem de parar? Para mim, parar significa olhar. Olhar significa reconhecer. Reconhecer significa se importar.

E se importar significa agir.

Porque, no fim, colocar a vida em primeiro lugar é escolher estar do lado da dignidade humana, da justiça, da paz, da fraternidade e daqueles que mais precisam.

Por Valmir Carlos

Licenciado em Filosofia, vice-presidente da FETRACSE e presidente da Inova Sertão – Agência de Desenvolvimento do Sertão Maranhense