
Até onde pode avançar a instrumentalização política da religião em uma democracia plural?
O caso que transformou uma santa em personagem de uma disputa eleitoral
O caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida ultrapassou os limites de uma simples guerra de narrativas nas redes sociais. O episódio reuniu o encadeamento de informação real, desinformação, disputa eleitoral, liberdade de expressão, decisões judiciais e uma questão de fundo que merece ser discutida sem paixões.
Qual é o limite entre a manifestação pública da fé de um candidato e a utilização da religião como instrumento de poder político?
A primeira obrigação de qualquer análise é separar fato de interpretação. E o fato central precisa ser registrado: não há evidência de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado ou esteja defendendo projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. O projeto que voltou a circular nas redes é o PL 2.623/2007, de autoria do então deputado Professor Victório Galli.
Isso, porém, não encerra o debate. Ao contrário. A polêmica encontrou terreno fértil porque existe uma discussão política real sobre a aproximação entre determinados setores do campo evangélico e candidaturas de direita, assim como sobre o uso de referências religiosas na disputa eleitoral de 2026.
“Em uma democracia, Deus pode estar na consciência de cada cidadão. Mas o Estado deve permanecer pertencendo a todos”.
Religião como instrumento de poder
O fato de a principal informação viral sobre Nossa Senhora Aparecida ser falsa não significa que todas as preocupações políticas ao redor do episódio sejam falsas. O debate sobre a presença da religião na política brasileira é legítimo e antigo.
Flávio Bolsonaro pode professar sua fé, frequentar igrejas, dialogar com pastores e defender valores que considere cristãos. Isso é protegido pela liberdade religiosa. O problema democrático começa quando uma crença particular passa a ser apresentada como critério de pertencimento nacional ou como fundamento para subordinar os direitos de cidadãos que professam outra fé — ou nenhuma.
A frase segundo a qual um eventual governo decretaria que o Brasil é “do Senhor Jesus Cristo” merece, portanto, análise política e constitucional. Mesmo que seja interpretada como simbólica, uma declaração presidencial sobre a identidade religiosa do país alcança milhões de brasileiros que não compartilham daquela crença. O presidente governa para todos, e não apenas para aqueles que votam nele ou frequentam sua igreja.
Estado laico não é Estado sem religião
A Constituição brasileira não estabelece uma religião oficial. Ao mesmo tempo, protege a liberdade de consciência e de crença, assegura o livre exercício dos cultos e impede que União, Estados e Municípios estabeleçam cultos ou igrejas ou mantenham com eles relações de dependência ou aliança. O Estado laico, portanto, não é um Estado contra a religião; é um Estado que não escolhe uma religião para governar todas as demais.
A liberdade religiosa vale para todos
Essa proteção alcança católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, religiões indígenas, religiões de matriz africana e pessoas sem religião. O Estatuto da Igualdade Racial protege expressamente a liberdade de consciência, crença e culto das religiões de matriz africana. A legislação brasileira também criminaliza diversas formas de discriminação e preconceito religioso.
O alerta sobre o fundamentalismo
É preciso cuidado para não confundir fundamentalismo com fé intensa. Um cidadão pode ser profundamente religioso, conservador e fiel à sua doutrina sem defender a imposição de sua crença ao Estado. O perigo aparece quando uma interpretação religiosa passa a reivindicar poder para definir quem é o “verdadeiro brasileiro”, quais crenças merecem proteção ou quais cidadãos devem ser considerados moralmente inferiores. Em uma nação continental e plural como o Brasil, esse caminho pode alimentar intolerância e violência com alto grau de gravidade.
A sociedade brasileira construiu, ao longo de séculos, uma convivência — nem sempre pacífica, mas juridicamente protegida — entre diferentes manifestações de fé. Preservar essa diversidade é uma tarefa democrática, não uma concessão a uma religião específica.
Nossa Senhora Aparecida e o Brasil
Nossa Senhora Aparecida é maior do que uma eleição, um partido ou uma candidatura. Para milhões de brasileiros, sua imagem representa uma devoção profundamente enraizada na história nacional. Transformá-la em instrumento de guerra política empobrece tanto a fé quanto o debate público.
O Brasil pertence aos brasileiros: católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, praticantes de religiões de matriz africana, povos indígenas, pessoas de outras tradições e aqueles que não professam nenhuma fé.
Brasil que queremos ser
O episódio de Nossa Senhora Aparecida vai deixar uma lição que ultrapassa a eleição de 2026. A maior ameaça não é uma religião participar da democracia. Isso é legítimo. O perigo está em transformar a religião em arma de divisão, medo e exclusão.
Não devemos aceitar que católicos sejam colocados contra evangélicos; que evangélicos sejam tratados como inimigos dos católicos; que religiões de matriz africana sejam inferiorizadas; ou que pessoas sem fé sejam consideradas menos brasileiras.
Nossa Senhora Aparecida pode continuar sendo a Padroeira do Brasil para aqueles que nela creem. Jesus Cristo continuará sendo o Senhor para os cristãos. Os povos de terreiro continuarão tendo direito às suas crenças e manifestações. E quem não acredita continuará tendo o mesmo direito de cidadania.
Por Valmir Carlos de Araújo Júnior
Professor, diretor sindical e vice-presidente da FETRACSE
Fontes consultadas
- Constituição Federal de 1988 — arts. 5º e 19.
- CNBB — Nota de Esclarecimento da Assessoria de Comunicação, 27/09/2026.
- CNBB — Bispos do Brasil sobre política e eleições nos últimos anos.
- Câmara dos Deputados — PL 2.623/2007 e registro de seu arquivamento.
- Planalto — Lei nº 6.802/1980.
- Planalto — Lei nº 7.716/1989, com alterações da Lei nº 14.532/2023.
- Planalto — Lei nº 12.288/2010, Estatuto da Igualdade Racial.
- Agência Brasil – Antonio Tabet Nossa Senhora Aparecida.
- Reportagens e declaração de Flávio Bolsonaro e sua aproximação com a Comunidade das Nações.
Análise e opinião. As afirmações factuais devem ser lidas em conjunto com as fontes indicadas.


